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sábado, 21 de dezembro de 2013

Conto: Areia

Estava em seu sofá, deitado.
A lâmpada acesa, o âmago de seu olhar angustiado. Lâmpada fluorescente velha, regiões escurecidas e volta e meia um piscar frenético. Preciso consertar isso, pensou.
O olhar ficou pesado; o sono veio. Dali não podia ver o relógio oculto em sombras, tique-taqueando sete para as quatro da manhã.
Um líquido gotejava pela fenda no forro do teto. Algum rato mijando, de novo. Preciso dar um jeito nisso também. Mas não era líquido, parecia forçar-se através da fenda e cair com um som seco no assoalho.
Seus olhos, duas rochas impossíveis de se segurar, cederam ao sono.
Não chegou a ver a substância fluindo dourada à luz defeituosa da lâmpada. Cristais minúsculos reluziam e esparramavam-se no chão, onde um montículo cônico cresceu durante o resto da noite.
Tique-taque-nove-horas-da-manhã; acordou com o pescoço endurecido. Tentou falar, acabou entupindo a boca e se afogando.

Areia, pôde ver agora. Saíra da fenda e inundara o cômodo, senão a casa toda. Havia areia até o seu queixo. Esforçou-se para se mover e subiu no sofá. O que diabos aconteceu aqui? Um caminhão de construção caiu do céu na minha casa?
- Preciso de uma ajuda aqui! - gritou, pensando na possibilidade de um motorista com cara de idiota aparecer na janela, coçando a cabeça por debaixo de um capacete branco.
- Não haverá ajuda para você. - disse uma voz grossa e ecoada.
- Quem é você?
Não houve resposta. A areia recolheu-se, transformando-se num pequeno volume flutuando no ar à sua frente. Um rosto emergiu do volume, austero e cheios de pés de galinha moldados em areia.
- Sou o Tempo, e vim te consumir. - a boca incrivelmente se movia, derrubando farelos como uma ampulheta quebrada.
Outro volume flutuou no ar, formando uma mão grotesca. Apontou para o relógio.
Olhou para o relógio, e assustou-se com o que viu: os ponteiros avançavam loucamente, porém nada ao seu redor parecia realmente envelhecer. Gravou bem a imagem do cômodo e fechou os olhos, e tornou a abri-los segundos depois. Tudo havia mudado. Teias de aranha, bolores e cheiros pútridos empestavam sua casa, e aquele rosto sinistro e sobrenatural o encarava. Será que realmente acordei?
- Sim. Você está acordado.
- Que tipo de brincadeira é essa? Cade as câmeras...
- Não é brincadeira. Sou o Tempo, o eterno predador de todas as coisas, até do próprio universo. Está quase na sua hora.
O relógio avançava mais rápido; se não fosse um pêndulo, teria parado há muito tempo. Sua proteção de vidro se enchia de pó e insetos em seu interior.
Gritou ao puxar os cabelos da cabeça e se deparar com um chumaço branco entre os dedos.
- Deixe-me em paz, assombração dos infernos! - fechava os olhos por um tempo e abria-os novamente, na esperança da alucinação acabar.
- A paz também é consumida pelo Tempo. E eu sou o Tempo. Já é sua hora.
O homem careca, banguela, as roupas viradas em farrapos, caiu de joelhos.
- Por que não me dá outra chance? Sei que não fui a melhor das pessoas...
- O seu caráter não convém. Sou apenas o Tempo, e consumo as estrelas da mesma maneira que consumo vocês homens. Vamos embora.
Uma areia úmida e densa envolvia o homem, enquanto o mesmo berrava como um bebê recém-nascido.
- Antes de se preocupar em consertar a sua casa e seus demais bens, devia ter se preocupado em consertar os próprios pensamentos. - falou o Tempo.

- Adriano M. Souza - 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Gary, Augusto e Alfred - Trancafiados

Gary, Augusto e Alfred tomaram vida própria - mesmo sendo um pouco "rastejada" - e permanecerão trancafiados num caderno de 96 folhas do Governo do Estado de Santa Catarina (obrigado pelo caderno), e podem precisar de mais cadernos, pois vêm revelando acontecimentos "volumosos", por assim dizer.

Por este motivo, farei uso desse espaço da maneira da qual propus no OBJETIVO: escrever. Porém não mais sobre esses personagens. Primeiro os deixarei concluir todo o incerto trajeto que precisam. Contudo, não removerei o que fora publicado.





sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Malas prontas para o fim - Augusto - 05

Finalmente o momento tão esperado. Observava pacientemente as últimas filas lotarem, enquanto que as da frente foram as últimas a ser preenchidas por completo. Cerca de mil alunos encontravam-se conversando, brigando, resmungando, curiosos a respeito do homem que sozinho iria encará-los de cima do palco. A hora não demorou a passar, e logo recebeu a ordem para começar com a apresentação. Ligou o microfone previamente testado.
- BOM DIA!
Muitas vozes responderam com certa falta de sincronia. Augusto se apresentou, contando um pouco sobre seus tempos escolares, elogiando alguns professores que assistiam na primeira fila. Havia uma pequena mesa baixa ao seu lado, onde colocara sua mala sofisticada. Ele a abriu, porém ninguém conseguiu ver seu conteúdo enterrado em veludo negro. .

- Muito bem, agora quero fazer uma pergunta. - Sua voz mudou repentinamente para um tom sério, fazendo os murmúrios dos rebeldes das últimas filas cessarem. - Quem quiser responder, suba aqui em cima. Cara juventude, o que é viver?

Um menino de óculos se levantou, porém não se moveu mais.
 - Viver não é apenas existir. Algumas pessoas existem, e é só. Escolher viver é aproveitar tudo que vier. – disse o menino.

Augusto sorriu por um instante. – E se você escolher viver, e de repente sua família morrer, seus planos tomarem outros rumos – inesperados -, o que pensa em fazer?
O menino não tinha resposta para aquilo. Enrubesceu em meio a tantos rostos debochados, outros perplexos.

- Seus professores irão dizer-lhes que a vida será difícil. E então, mesmo com tamanha capacidade formal de ensinar, eles não explicarão o que é tal dificuldade tão inevitável, porque é uma carta diferente para todos nós.

Na primeira fileira, professores olharam-no surpresos, outros pigarreavam e remexiam-se nos assentos. Ele é louco para vir à escola falar tamanha bobagem? Alguns olhos o condenavam por trás de óculos velhos. Augusto continuou:

 - Às vezes nos enganamos com as próprias escolhas, e às vezes elas dão certo. E quando dão certo, às vezes – para não dizer quase sempre – uma eventualidade nada agradável destrói nossa maior trama de um futuro promissor. O que fazer? Parece uma pergunta infinita, com outras infinitas respostas aguardando-a das sombras. – houve uma pausa, na verdade uma maneira de avaliar o quanto seu discurso estava fazendo efeito – Poderia alguém dar-lhes a Resposta das Respostas? Vocês estão em uma escola, se preparando para trabalhar daqui dois anos ou ano que vem. Tá, e daí? O que conseguirão com tudo isso?

Uma figura pôs-se a caminhar debilmente, pálida à luz gritante dos holofotes. Fez o gesto que pedia um momento tímido para responder. O auxiliar de palco entregou o microfone à figura, que segurou-o de forma frágil, quase derrubando-o. Por fim seus lábios abriram-se numa fina fenda de carne pálida, dizendo:
- O homem precisa caminhar. Caminhar sempre em frente. Todas as gerações resistiram assim, caminhando e se questionando, questionando tudo à sua volta, as estrelas, a terra e a água. Estamos aqui, no tempo presente, como a prova real de que todo um caminho fora percorrido. E se o mundo está perdido, e se nada mais fizer sentido, o homem continua caminhando, seja na pior das solidões ou na melhor das alegrias. Nunca devemos nos conformar. Há sempre uma estrada à frente, algo a mais para vislumbrar. – disse o menino que se chamava Gary, Augusto o reconheceu. Segundos depois fora contemplado com suspiros de admiração e surpresa e aplausos.
O garoto devolveu o microfone ao auxiliar de palco, e voltou à sua cadeira em seus passos débeis, arrastados, sem responder ao menos com uma expressão aprovadora. Augusto sorriu, aguardou que o tumulto acabasse sozinho, e falou:


- O jovem foi muito corajoso, admito. Falar sobre questões existências causa irritação em qualquer grupo de qualquer etnia. É como se, no dia-a-dia, para não haver o perigo de alguém perguntar distraidamente para outra pessoa “Olá, porque você veio para cá? Qual seu objetivo? O que lhe movimenta?”, o assunto programado é “Olá, choveu muito ontem, não é mesmo?”. Ninguém parece gostar desse tipo de discussão, e sem dúvida todo mundo antes de dormir pensa a respeito. – houve mais uma pausa. Então Augusto retirou sua mala de cima da mesa, apertou alguns pinos e puxou alguns ganchos de complicado manuseio, e a mala se abriu. Com seu conteúdo ofuscado num forro negro aveludado, a mala ainda ocultava o que havia em seu interior. – Quero fazer uma experiência com todos, mas para isso precisarei de um bom voluntário que suba aqui em cima para me ajudar.


                                                                                           - Adriano M. Souza -


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Fantasias sobre fatos - Gary - 03


Conhecera um homem no início da manhã. Augusto era o nome dele; parecia um inspetor do futuro que viera averiguar os acontecimentos do passado, com suas roupas sofisticadas e sua mala prateada, que poderia a qualquer momento se abrir e revelar qualquer mecanismo enorme. Mas não. Era um homem normal, do presente. Normal na verdade não, pois fazia-o lembrar do pai. Além de tudo, o homem conhecia fantasia, e gostava dela. Gary por anos sustentou o pensamento de que todos os adultos um dia mergulharam em mundos de realidades alternativas, com seres curiosos e poderosos que poderiam nos dar uma lição para a vida durante o relato de jornadas inesquecíveis. Também, anexado a este pensamento, imaginava que todos os adultos tornaram-se maduros e por fim acharam aqueles mundos estúpidos e infantis. Claro que Tiago, seu pai, tratava-se de uma cláusula especial. Mas agora havia outro, havia Augusto. Poderia encontrá-lo novamente? Achava que não, porém queria.
A voz do professor de história se tornava cada vez mais alta – uma tentativa de chamar a atenção da turma que queria falar e ouvir de tudo e de todos, menos de suas palavras lapidadas sobre os povos ancestrais americanos. Gary, o único interessado no assunto, distraíra-se pensando no homem da maleta metálica. A voz do professor agora chegava aos seus ouvidos lentamente, como um objetivo arremessado embaixo d’água. Não demorou muito até acontecer a mesma coisa com sua visão. E num súbito devaneio, estava em outro lugar que talvez nem existisse.
Era um total negrume, que iluminou-se aos poucos como um cidade que se recupera de uma queda de energia. As luzes brancas originavam-se de pontos, sendo cada qual separado por dois metros de escuridão. Duas linhas dessas luzes vinham do mesmo lugar em sua direção, lembrando uma passarela de um desfile de moda. Nada mais se podia ver.

Pac... Plac... Plac... – o som de líquido fazia ao pingar em algum lugar.
Gary só via a passarela iluminada, porém bem sabia que havia algo sobre ela; e podia vê-lo. Na verdade, havia o chamado.

- Você gosta da água, Gary? Do som dos pingos de chuva caindo? – uma voz perguntou; uma voz que não definia feminilidade ou masculinidade. Uma voz vagarosa que parecia nunca chegar, nunca terminar sua sentença. De algum modo soube quando era o momento de responder.

- Sim.

- De onde vem a água, Gary?

- Da Terra. Da natureza.

- E de onde veio a Terra, com sua natureza? – a voz ganhou um tom subido de arrogância.

- Não sei.

Ouviu uma respiração profunda, doentia.
- Quem é sua mãe, Gary?

- Não sei.

- Você sabe quem é o seu pai?

- Eu sei.

- Sabe a importância dele?

- Apenas sei que é importante.

- Tiago cuidou bem de você; lhe ensinou bem.

- Obrigado.

- Deve contar o que sabe a todos, Gary.

- Eu devo?

- Sim. É necessário contar a todos.

- Sim. É.

- Hoje, Gary. Daqui a algumas horas. Saberá quando sua oportunidade chegar. Se estiver realmente pronto para isso – a voz saíra da arrogância e fora para a seriedade – saberá quando interrompê-lo e começar a falar.
- Interromper quem?

- Espero que você saiba. Precisa contar a todos antes que o segredo acabe em você. É 
necessário. Quando – e se – você começar a contar, os sentimentos de quem lhe ouve serão restabelecidos; não sobrará dúvidas nos olhos de ninguém quando você terminar. Dentro de poucos dias todos saberão a verdade.

- E o meu pai?

- Ele o criou para isso. Não cabe a ele. Talvez nunca mais se encontrem.

- Tudo bem. - Gary já não conseguia dar respostas mais complexas, fora tomado por um súbito desejo de obediência. As palavras pareciam sair da sua boca como se fossem de outra pessoa.

- Contamos com você. Há milhões de anos tentamos isso.

A voz parou de falar. As luzes gradualmente se apagaram. O negrume se extinguiu e Gary voltou à realidade, como quando olhamos um vidro fumê à distância e, ao se aproximar, conseguimos ver o que se oculta por trás dele.

- ...rrompermos a aula dessa maneira, gente, mas o professor já estava sabendo. Podem guardar o material e se dirigirem ao palco principal. O conhecimento vos espera. – estava dizendo Kelly, a moça da secretaria. Gary a conhecia apenas de vista.

- Isso aê! Vamos assistir a um filme? – alguém perguntou.

- Não. Claro que não. Teremos uma palestra.

E a turma caiu em desespero. As palestras: para eles falatórios que jamais pareciam ter fim, sobre um assunto que não dizia respeito a ninguém.

- Eu prefiro um show de rock – gritou o robusto Fred.

- Cale a boca Fred. A palestra é sobre o quê? – uma das meninas inteligentes perguntou.

- Prefiro não dizer; é surpresa. Um antigo aluno da escola fez questão de vir ter uma palavra com todo o ensino médio. O nome dele é Augusto e promete que esse dia mudará a vida de todos vocês.

Gary, menino sempre quieto e disciplinado, ficou boquiaberto e com os olhos esbugalhados. O professor notou sua expressão e fez uma cara de “não foi uma boa hora de olhar pra esse lado”.
Todos tentaram sair ao mesmo tempo. Gary imaginou um confronto épico entre a diretora e a manada de búfalos que avançava aos empurrões. Sua tensão chegava a ser visível; um balde transbordando medo e aflição havia sido jogado em sua cabeça.

 As turmas pouco a pouco recheavam o palco principal. Augusto estava lá, em pé, com todo o equipamento multimídia disponível e sua estranha maleta fechada em cima de uma mesa. Gary se sentou em uma das primeiras fileiras. A voz falara que ele saberia o momento certo, e agora estava ciente disso.

- Adriano M. Souza -

Uma dor bate em sua porta - Alfred - 06

Estava cansado até de pensar e queria aproveitar que a dor de cabeça havia parado. Abriu os olhos e viu que estava num quarto muito semelhante ao quarto onde estava Jorge. Podia até afirmar que era o mesmo, não fosse pela ausência do porta-retrato e a vista diferente da janela e, sem dúvida, da mulher querendo matá-lo.
Quando a mulher de Jorge chamou-o monstro não se sentira insultado; se sentira inteiramente culpado. Claro que a mulher não precisava necessariamente espancá-lo, e a tentação de paralisá-la fora grande, porém sabia que se tivesse feito isso, teria acordado na delegacia e não no hospital.
Sentiu vontade de movimentar os braços. Quando o fez, uma dor subiu pelas veias, percorrendo todo o corpo. Penetrada em sua mão havia uma pequena lâmina, a ponta perfurante de uma minúscula mangueira transparente, que transportava o líquido contido num saco plástico suspenso por um equipamento. Alfred se concentrou e pôde sentir o líquido invadindo seu corpo, mas para curá-lo; podia ser com esse propósito e, mesmo assim, ele não perdia o pavor que tinha por agulhas. Usava uma roupa larga, de cor azul fraquíssimo; lembrava um pouco o pijama que o pai usava.
Bateram na porta. Abriram-na.

- Bom dia senhor Alfred. Que bom que está acordado. Como está?

- Bom dia. Estou bem melhor.

- Ótimo. Estou aqui para falar com o senhor. Sou o doutor Bruno.

- Muito prazer.

- O prazer é todo meu. Acho que não foi muito prazeroso pra você ter de ver um médico. – sorriu – Basta alguém ver um sujeito de uniforme branco visitando sua casa e já se imagina uma tragédia.

- Isso é verdade.

O doutor puxou uma cadeira reservada para visitas – que no caso de Alfred não haveria nenhuma – e sentou bem perto da cama. – Alfred, vou direto ao ponto: você não precisava ter ficado aqui esses dois dias por causa de alguns arranhões de uma mulher furiosa.  Sua dor de cabeça nos preocupou muito.

- Dois dias? – não estava lembrado de ter se passado tanto tempo, afinal teve apenas um sonho curto...

- Sim. O primeiro dia você simplesmente desmaiou. No segundo, ficou dormindo.

- Entendo. - Alfred olhou o saco transparente de soro; estava perdendo o seu conteúdo lentamente.

- Fizemos alguns exames em você. Os resultados não foram satisfatórios. Sabe, as dores de cabeça têm um motivo; e geralmente conseguimos descobri-lo. Não no seu caso, infelizmente, Alfred.

Alfred tinha medo de perguntar uma única coisa. Tomou coragem. – Há possibilidade de risco de vida?

- Sinceramente eu não sei. Precisamos fazer mais exames. A boa notícia é que você poderá fazer um tratamento experimental à base de um medicamento diário, ou seja, a dor será pequena ou nula.
Não sabia se podia ficar feliz com a notícia. Lembrou-se das dores, os tambores e os juízes. – Muito obrigado doutor. Não sabe o quanto essa dor é forte... É como uma tortura.
- Entendo seu alívio Alfred, mas não se esqueça de que você não está curado. Trata-se de um medicamento experimental. Entro em mais detalhes amanhã sobre isso. – o doutor se levantou e parou como se faltasse dizer alguma coisa. – E tem mais coisa.

- O quê?

- Marta, a mulher de Jorge, acusa-o de tentativa de homicídio. Consegui afastá-la de você por alguns dias, porque Jorge está se recuperando. O que você diz em sua defesa?

- Tudo que eu fiz foi lhe oferecer a minha impressora, que era mais rápida e silenciosa. Ele não demonstrou resistência. Eu não sabia...

- Entendi. – o doutor o encarou desconfiado - Terá tempo para resolver isso depois que sair daqui. Por enquanto relaxe.

- Bruno...

- Diga Alfred.

- A dor. Um inimigo do qual não se pode fugir. É meio aterrorizante.

- Concordo com você. Quando consegui meu primeiro emprego descobri que as pessoas não eram como os mortos com cobertura de formol. Têm as próprias reações, expressões, sentimentos. Tudo é diferente em cada um. E a dor é um inimigo à espreita, ou pode ser um grande aliado informando de que algo está errado. Acho que a dor está apontando um problema, Alfred, apenas a veja como uma boa anciã que sabe das coisas.

- Ela poderia fazer isso de uma maneira menos dolorosa.

O doutor riu - Se fosse assim, ninguém prestaria atenção. Pedirei à enfermeira que volte aqui hoje. Até amanhã Alfred.

- Obrigado. Até amanhã.

Antes de voltar ao sono cansado de doente, Alfred sentiu-se aliviado por saber que poderia viver sem dor de cabeça. Porém, no fundo, sentiu um calafrio vindo de lugar nenhum, que dizia “Não é só uma dor de cabeça. Há algo de errado com você, muito errado.” Por ora só restava esperar os exames. E, depois de tudo isso resolvido, teria de lidar com uma mulher no tribunal; a situação comum, a seu ver, era acabar com o homem perdendo, mesmo com a razão em mãos.

Depois de tudo que acontecera em sua vida, pensava que todas as peças construídas se encaixariam, formando uma bela imagem futuramente. Olhando para o teto da sala monótona – segundos antes de dormir – pensou: Mãe e pai, talvez seja essa a hora de me juntar a vocês.

- Adriano M. de Souza -



sábado, 10 de agosto de 2013

Uma dor bate em sua porta - Alfred - 05

Se havia algo que Alfred gostava em sua vida era ser independente. Saíra de casa há quinze anos, quando ainda estava decidindo em qual faculdade estudar. Achava a ideia de ter uma casa só para ele uma maravilha, sem ter de se preocupar com nada que não fosse dele, e apenas dele. Bem, pelo menos foi o que ele pensara no seu plano. As coisas na prática, encaradas na pele, eram bem diferentes, como ele assim provara. Não conseguira manter emprego e faculdade, e teve de parar com os estudos. Uma vez tentou retornar para casa, nove anos após sua deixa, mas descobrira algo que sua mãe nunca lhe contara nas ligações: que estavam falidos e seu pai havia falecido. A princípio ficara furioso com a mãe por não ter contado sobre a morte de seu pai por quase três anos. Depois compreendeu que ela se encontrava num estado de choque, beirando à loucura. “Filho, meu filho – ela dizia com a voz tremida – papai foi trabalhar e já volta. – e sorria como se não soubesse da verdade”. E Alfred soube aos poucos que ela realmente não sabia, estava realmente enlouquecendo; começara a confundir o passado com presente, trocar óleo de cozinha por detergente.
Achava que a vida não podia piorar do ponto em que estava e foi morar numa casa em Lordevile, a poucos quilômetros da casa de Rita, sua mãe. A partir daí Alfred administrava a vida da mãe. Descobriu que possuía direito legal nas antigas posses do pai, e que iria receber uma quantia razoável de dinheiro mensalmente, assim como Rita. Pagava tratamento psicológico para ela, visitava-a todos os finais de semana, começou um curso de administração e conseguiu uma vaga de estagiário na Investimento Ideal no contra turno.
Cinco anos depois Rita morreu em depressão profunda. Era um sábado, e Alfred desembarcou em seu carro novo que estava na primeira parcela de trinta e seis. Bateu na porta da casa da mãe por quase dez minutos sem resposta. Teve uma ideia: verificar se ela ainda usava o mesmo esconderijo de chaves, dentro de um vaso suspenso de samambaias ao lado da janela.
A chave estava lá; mas quando colocou-a no trinco percebeu que não ia precisar dela. “Entre filho. Já fiz o jantar. Papai já está chegando.” Ouviu sua mãe dizer numa voz estranha, como se ela estivesse prestes a dormir de súbito. Então ele entrou e se aproximou dela, que estava sentada no sofá, para lhe dar um beijo de surpresa. Iria contar as ótimas novidades: havia comprado um carro novo quase sem juros, e havia assumido um cargo permanente na Investimento Ideal, já recebendo um bom aumento.
Porém havia algo errado com Rita. A luz da sala estava apagada e a TV ligada, e ela não parava de tremer; agitava os braços apoiados nos braços do sofá. Alfred chegou perto o suficiente e colocou as mãos delicadamente em seus ombros e se curvou para dar-lhe um beijo, e ficou horrorizado quando viu o sangue que escorria pelo decote e já manchava o vestido cinza. Rita tremia olhando para o teto, com seu corpo magro endurecido; sua pele branca agora escurecia e seus cabelos que passavam do preto para o grisalho pareciam magicamente perder todo o brilho. O garfo de cozinha cravado em seu pescoço, fazendo com que a hemorragia fosse ininterrupta. Em suas mãos finas de unhas bem feitas um bilhete apertado. Alfred não pôde conter as lágrimas e os gritos de desespero. Imaginou mil coisas antes de conseguir ler o bilhete. Imaginou um assassino entrando ali para dar um fim à mãe. Imaginou um seqüestrador que deixara um aviso de que o próximo seria ele, caso não pagasse o valor exigido. Imaginou que sua mãe talvez mentira sobre a morte do marido, e que na verdade brigaram terrivelmente e ele viera hoje acertar as coisas, mas discutiram e tudo foi longe demais. Outros pensamentos ainda mais desconexos e estranhos tentavam explicar no interior de Alfred o que estava acontecendo ali.
Então leu o bilhete:
“Desculpe filho, ainda vivo com seu pai, ele está aqui. Sinto ele comigo. Tenho que partir com ele. Amo você, meu Al, mas seu pai é uma raiz bem mais forte no meu coração.
Desculpe filho, mas você já está grandinho para se virar sozinho. Eu sei da sua promoção no emprego, ligaram aqui ontem. Escute: você tem tudo para viver ainda, antes de encontrar seu pai e sua mãe de novo. Nós sempre te amaremos. - Rita e Pedro”
O suicídio fora confirmado três dias depois.  Sem ambos os pais, que constituíam sua ideia de família, Alfred viveu meses – para ele pareceram décadas – no silêncio. Estudava em silêncio. Trabalhava em silêncio. Até seu sono era silencioso, sem nunca proporcionar sequer uma imagem descolorida de um sonho remoto. Passava os finais de semana confinado na casa dos pais observando álbuns, lendo os livros complicados de direito que o pai possuíra aos montes. Aquilo não estava sendo uma terapia e sim uma tortura; não estava lhe fazendo bem, acabava por pensar muitas vezes. Adormecia no sábado, no tapete da sala dos pais, e acordava na manhã de domingo com uma fome terrível, percebendo que já ia fazer dois dias que não colocava nada no estômago.
Certo dia começou a ler um livro do pai, o mais fino; Alfred gostava de ler, desde que fossem livros finos. Chamava-se O Contrato Social, escrito no século XVIII por Jean Jacques Rousseau. Leu o prólogo e se interessou, folheando até por fim terminar o capítulo um, mas quando chegou ao capítulo dois, virou o rosto tentando impedir lágrimas. O capítulo II dizia:
“A mais antiga de todas as sociedades, e a única natural, é a sociedade da família. Os filhos permanecem ligados ao pai apenas pelo período de tempo que dele necessitam para se manter. Tão logo essa necessidade cesse, o laço natural se dissolve. Os filhos, eximidos da obediência devida ao pai, e o pai, isento dos cuidados que deve aos filhos; todos se estabelecem igualmente na independência. Se continuam a permanecer unidos, já não é mais naturalmente, mas voluntariamente, e a própria família se mantém somente por convenção. [...]”

Chorou por muito tempo. O choro transformou-se em lamúrias, que depois se tornaram uma sensação de cansaço que o fez debruçar-se na mesa da cozinha e adormecer. Depois se seguiram muitos outros acontecimentos, mas Alfred não queria lembrar agora.

- Adriano M. Souza -


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Malas prontas para o fim - Augusto - 04

- É uma pena que não possa ser hoje, Kelly. – Augusto usava uma roupa formal; não um terno – porque era formal demais –, mas uma roupa que impusesse respeito. Um corte de cabelo neutro reforçava sua seriedade. Trazia também uma maleta cinza iguais àquelas que os mafiosos usam nos filmes para transportar elevadas quantias de dinheiro... Ou uma bomba.

- Desculpe por isso Augusto. 40% das turmas têm prova marcada hoje, e a escola deve priorizar as decisões dos professores. – Kelly usava uma saia verde e uma blusa vermelha. Segurava uma prancheta na mão, mostrando a Augusto uma lista das turmas e seus dados gerais.

- Sim, com toda a certeza. – concordou Augusto fingindo prestar atenção nos nomes, mas na verdade olhava Kelly dos pés à cabeça. Puxa, ela parece uma melancia com estas cores.

- Além do mais acho até melhor que seja amanhã.

- Por quê?

- Porque não tivemos tempo de divulgar às turmas.

- Olha Kelly... Nos meus tempos de escola, se você falasse que haveria uma palestra amanhã, ninguém estaria aqui amanhã.

Kelly riu. – Já sabemos disso, fique tranquilo. Nossa estratégia é divulgar assim que a aula se der início amanhã. Então os conduziremos ao auditório principal.

- Então ótimo. Quero todos os alunos do ensino médio com os olhos em mim, se for possível.

- O senhor parece mesmo determinado. No telefone não entendi bem o que você quis dizer, mas não hesitei em marcar compromisso ao julgar o currículo que você nos mandou.

- Particularmente eu acho um currículo modesto; mas há piores, não é?

- Modesto? Não brinque comigo. Com toda certeza que há piores, e milhares. O senhor poderia me falar em resumo o tema de abordagem da palestra e os possíveis eventos que poderão ocorrer?

- Novamente lhe peço que confie em mim. Na verdade quero abordar sobre tudo, a vida.

- Não é amplamente filosófica, certo? Porque esse tipo de palestra sempre acaba com uma ou duas professoras querendo arrancar os cabelos dos alunos.

- Abordarei filosofia, creio eu. Mas o que eu quero deixar claro é o seguinte: vou mudar a vida dos seus alunos. Para sempre.

Kelly de repente pareceu encarar Augusto como uma tiete que dá de cara com seu cantor idolatrado. – Nossa! Então está bem. Só preciso que você preencha essas linhas em branco com sua assinatura, e tudo estará marcado.

- Tudo bem, foi um prazer voltar à minha cidade natal. Tenho muitas lembranças da escola. Está vendo o terceiro bebedouro ao lado do banheiro masculino? – Augusto apontou com o dedo.

- Sim, estou. O que tem ele?

- Foi bem ali que levei uma surra de quatro colegas por não ter passado o gabarito do exame final.
Os dois caíram na risada.

- Suponho que eu não deva perguntar onde você arranjou o gabarito exame.

- Ah, com certeza que não deve.

- E nós, a serviço sempre da educação, sempre dizendo que alunos que colam nas provas, distraídos e bagunceiros nunca serão boa coisa na vida. – disse Kelly em tom irônico.

- Devemos tomar cuidado com as contradições. Veja bem, Bill Gates saiu da escola.

- Hoje em dia essa é a maior desculpa desses alunos desmiolados, viu?

- Imagino que sim. – estava terminando de assinar a última linha da prancheta onde dizia para ele se declarar inteiramente responsável por quaisquer danos – será que você me permite respirar o ar que passa por esses corredores de novo? Quero dar uma olhada no ambiente.

- Oh, claro, sem problema. Fique à vontade. Volte à secretaria ou me ligue se precisar de alguma coisa.

- Muito obrigado, Kelly, pode deixar.

Kelly voltou ao seu trabalho na secretaria, deixando Augusto no pátio da Escola de Lordevile. Augusto estava decidindo se visitaria primeiro o velho bibliotecário ou a antiga escadaria dos fundos onde ele e Laura trocaram as primeiras tímidas carícias. Antes de se decidir, um zumbido passou do seu ouvido esquerdo para o direito. Era um beija-flor; pequena ave encantadora que dá a sensação de velocidade e destreza. O bichinho se deparou com o próprio reflexo no revestimento metálico da mala de Augusto, deu duas bicadas e – zum - sumiu no céu.
Decidiu começar pelas escadarias quando sua visão periférica notou alguém vindo do portão da escola. Augusto olhou para o menino de estatura baixa. Tinha uma franja parelha de cabelos bagunçados e um olhar vago, distante; olhos castanho-amarelados sem dúvida. A mesma cor dos olhos de Laura, não esquecia. Certamente o menino era um aluno, pois notava-se a mochila velha pendurada nas costas. Vinha caminhando lentamente, até que Augusto viu o grosso livro que ele trazia por entre os braços cruzados: O Senhor dos Anéis. Sentiu uma estranha curiosidade em saber quem era aquele aluno.
- Olá, garoto. – acenou Augusto. O menino ergueu os olhos do chão.

- Oi. – o menino não parou. Parecia estar acostumado a apenas cumprimentar e seguir em frente.

- Garoto, espere. – agora ele parou.

- Desculpe, senhor. Sim?

- Sem problemas. – ofereceu a mão direita, inclinando-se. – Me chamo Augusto.

- Oi, meu nome é Gary – o menino apertou a mão em resposta.

- Senhor dos Anéis, não é? Uma ótima história. Adoro fantasia.

O menino pareceu gostar do que ouviu.
- Sim! Também gosto muito. – apontou para o livro – É presente de meu pai.

- Legal, então você tem um ótimo pai. – Augusto sorriu para ele.

- Quem é o senhor?

- Só vim fazer uma visita à minha antiga escola. A Escola Lordevile. Aposto que muitos alunos nem sequer sabem quem foi Lordevile.

O menino acenou concordando, e disse: - Dizem que há um documento no Museu Lordevile que comprova que um homem morou sozinho nessa região, que era um vale inabitado por humanos. Então, quando chegaram mais pessoas, ele as ajudou com comida e madeira. Assim se fizeram as primeiras moradias, há muito tempo. O homem era simpático, segundo relatos, mas misterioso. Acabou se tornando o líder da primeira colônia. Queria que todos os chamassem de Lorde, e ninguém sabia o significado da palavra. Em homenagem a ele, este lugar se chama Lordevile.

Augusto ficou impressionado. – Muito bem, muito bem! Se eu fosse professor lhe dava nota extra. Está aí um raro estudante nos dias de hoje.

- Obrigado senhor. Estou muito atrasado. Até logo.

- Até logo, então.

Augusto gostou daquele menino; era exatamente como ele na adolescência. Um sujeito muito quieto que, bastasse fazer a pergunta certa que uma tempestade de informação inundava o diálogo. Aonde o garoto parou para falar com ele, havia uma folha seca. Augusto a pegou e percebeu na hora: um marcador de livro. Embora não conseguisse distinguir de que árvore saíra aquela folha. Era dourada e ao mesmo tempo não era. Era vegetal e ao mesmo tempo não era. Que coisa estranha, pensou.

- Adriano M. Souza - 


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Uma dor bate em sua porta - Alfred - 04

Um pequeno porta-retrato exibia uma foto onde três pessoas olhavam sorridentes para a câmera, enquanto se abraçavam. Na foto estava Jorge, sua mulher e sua filha de um ano, sobre um cenário verde de folhas e vermelho de roseiras. O pequeno porta-retrato era a única coisa colorida no quarto do hospital; parecia até não pertencer àquele lúgubre lugar desbotado.

Alfred estava em pé ao lado da cama, com as mãos nos bolsos. Olhava para a foto e depois para Jorge que jazia inconsciente sem previsão de voltar a abrir os olhos.
 - Amigo, sinto muito. De verdade. Se eu soubesse do seu problema nunca te deixaria... - Alfred ouviu passos, um caminhar de pés que calçavam salto alto, aproximando-se da porta.
 - ELE ACORDOU! TEM ALGUÉM CONVERSANDO COM ELE! ALGUÉM, ALGUÉM! ELE ACORDOU! ACORDOU!
A porta se abriu e uma mulher entrou aos tropeços, debruçando-se por cima dos pés de Jorge. Era a mulher do porta-retrato. Ainda ofegava quando percebeu que o marido não havia acordado, e pareceu não ter se importado com Alfred até aquele momento.
 - Quem é você? Por que estava falando sozinho? Meu marido acordou? - levantou-se e cravou as unhas nos ombros de Alfred - Me diga. Diga!
 - Calma senhora, calma! Não, infelizmente ele não acordou. Eu estava falando com ele, sabe, para ele. Sou colega do seu marido na Ideal.
 A mulher soltou seus ombros e esbugalhou os olhos, levando a mão à boca. - Você é o homem da impressora?
 - Sim, sou e-
Paf!Paf!Paf!

Os três tabefes que Alfred levou na cara ressoaram pelo quarto e porta afora. Uma enfermeira que passava pelo corredor entrou no quarto curiosa.

Puf, puf, puf - fizeram os tambores tocados por robustos orientais mais uma vez - era mais um ano novo chinês no interior da cabeça de Alfred. Sentiu as bochechas queimarem, e imaginou a tremenda marca da mão fina da mulher que ficara ali. Não houve tempo para defesas ou respostas, a mulher mostrou os dentes numa expressão furiosa e partiu de novo pra cima dele.
 - Seu MONSTRO! Matou o meu marido! Foi VOCÊ! MONSTRO!

A enfermeira tateou a parede ao lado da porta em busca do telefone, sem desviar o olhar do homem e mulher que rolavam pelo chão ao lado da cama. Fez um telefonema rápido e desligou, correndo para tentar conter a mulher furiosa que estapeava e arranhava o visitante do homem inconsciente.
 - Senhora! Por favor, senhora, preciso que se acalme agora mesmo. Chamei os seguranças.
 A mulher golpeava cegamente e nem sequer ouviu a enfermeira falar. Alfred tentava proteger a cabeça dos socos, tapas e arranhões.
Não demorou muito até aparecer um segurança alto seguido de outra enfermeira. Encontraram a mulher com os cabelos loiros bagunçados, salivando e com pelo menos uma amostra da pele de Alfred debaixo das unhas. Para o segurança não foi difícil paralisar a mulher.
 - Leve-a daqui, por favor! Está totalmente descontrolada. - gritou a enfermeira.
O segurança assentiu saindo do quarto arrastando a mulher pelas axilas, enquanto se esquivava de socos e arranhões. As duas enfermeiras ajudaram Alfred se levantar.
 - Senhor, você está bem?
 - S-sim, não foi nada... É só... minha cabeça. Enxaqueca.
 - O senhor tem enxaqueca? Isso é péssimo. Levou muitos golpes na cabeça, desculpe pela demora para socorrê-lo.
 - N-não...foi bem rápido...Obrigado.
 - É melhor o senhor guardar as explicações para depois. Não sei o que deu naquela mulher. Isso tudo foi estranho. Venha, consegue andar? Por ora podemos fazer um diagnóstico e lhe medicar, só iremos precisar dos seus documentos.
 - T-tudo bem. - na verdade Alfred estava fazendo grande esforço só para manter a cabeça rígida em cima do pescoço; no momento estava tão pesada que parecia ser feita de ferro maciço. E o pior de tudo, um globo de ferro quente, avermelhado de um fogo intenso, queimando sem parar.
 - Está bem senhor. Então vamos, a gente te ajuda na caminhada. - a enfermeira sorriu aquele sorriso de "pode estar tudo errado com você, sua pele poderia ter caído podre no chão, mas sou uma enfermeira e preciso acalmá-lo para o seu próprio bem" - Por aqui. Isso. Bem devagar.

De alguma forma Alfred conseguia mover as pernas, uma e depois outra, e depois a outra de novo. Seu queixo amoleceu e sua língua  perdera as forças. A dor de cabeça era tão forte que já não se importava com o ardume nas costas e bochechas causados pelas malditas unhas da mulher de Jorge. Que boa ideia a dele de visitar o colega por quem se sentia culpado. Seu último pensamento, antes de sua visão começar a escurecer e fechar a janela de acesso ao mundo, foi do por que de ele não ter aceitado o desafio dos amigos mais velhos, quando tinha treze anos, e pulado dentro do rio. Ele não sabia nadar.

                                                               - Adriano M. Souza -


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Fantasias sobre fatos - Gary - 02

Uma calma noite se desvencilhava sob a paisagem de finas nuvens cinzentas que cortavam a lua crescente, fazendo-a se parecer com um sorriso banguela. A ideia de população civilizada no meio e dentro das torres de cimento na cidade de Lordevile era completamente ignorada na vastidão dos campos verdes onde Gary morava com seu pai.

Depois do jantar (que aliás era um dos momentos mais deliciosos para Gary, porque sempre que chegava da aula às sextas-feiras uma mesa, que parecia ter saído de uma máquina do tempo que regressara da era medieval, o aguardava majestosamente no salão de jantar) pai e filho subiam à plataforma circular - toda trabalhada em madeira - que projetava-se da casa e se apoiava em dois carvalhos que ainda cresciam juvenis e fortes. Lá de cima sempre vislumbravam as noites mais belas, mesmo que fosse um temporal, pois Tiago dizia a Gary que a natureza era bela até em suas fartas chuvas e relâmpagos.
Porém, hoje, estavam conversando sobre o que Gary contara que havia acontecido na sala de aula.
 - Filho, você pode seguramente abrir um debate sobre mitologia, porém não pode afirmar com veemência que acredita em seres fantásticos. - Tiago era um sujeito alto e de bom físico, quase escultural. Usava pequenos óculos retangulares que amenizavam os efeitos da deficiência da visão de seus olhos castanho-amarelados.
 - Lamento por isso, pai. Sabe, eles me olharam como se eu fosse louco. E o professor estava agindo de modo evasivo. Eles não compreendem... - Gary fazia sua brincadeira com os dedos novamente, enquanto olhava as nuvens afastarem-se do sorriso da lua devolvendo-lhe os dentes faltantes.
Tiago andou em direção à borda da plataforma entre os troncos de ambos os carvalhos, que ainda iam em direção ao céu por cerca de quatro metros até, por fim, terminarem em galhos pontilhados de folhas verdes. Ele estendeu as mãos para cima e - talvez por acaso - um vento soprou forte. A enorme de dupla de árvores, pilares-vivos da plataforma, balançaram lentamente se curvando para dentro, quase fechando um arco sobre o homem. O movimento reverso foi naturalmente mais rápido, lembrando duas catapultas montadas em direções opostas. O vento amainou e dois relâmpagos profetizaram a chuva no horizonte, a muitos quilômetros dali. Tiago virou-se, com os cabelos pretos sobre a face de uma cor dourada fantasiosa, e falou a Gary:
 - As pessoas seguem o seu caminho. Todos possuem os códigos secretos que reproduzem nossas raras formas de vida, mas poucos se importam com isso, sequer pensam sobre isso.
Continuou após uma longa pausa:
 - Filho, você poderia ter a idade de corpo e mente paralelas, mas eu acharia isso lamentável. Terrivelmente tal fato é muito comum por entre as torres de concreto como aquela - apontou para Lordevile - e você sabe disso.
- Sei sim, pai.
Tiago detectou verdade no filho e sorriu numa formidável paz interior. De repente pareceu preocupado e estreitou o olhar, perguntando:
- Mas ninguém percebeu o que você estava vendo? O que escapou de suas vistas pela porta?
- O quê, pai? Ah..não, acho que ninguém viu.
- É um bem maior que fazemos a eles. Não têm a preparação para ver o restante. Aliás, nem você tem, filho - e sorriu como se tivesse contado uma piada -, embora possa ver mais do que eles; o que é um prodígio.

Então a noite acabou para Gary quando a tempestade chegou à casa e seu pai pediu para que descesse para ir dormir. Tiago continuou lá em cima abaixo d'água e Gary não percebeu quando - e se - o pai descera.

No pequeno, mas confortável, quarto de Gary, o tamborilar da chuva era abafado pela espessa madeira que formava as quatro paredes do cômodo. Olhando pela janela, confirmava mentalmente a verdade que o seu pai dissera. Que a natureza era bela até em seus estrondosos barulhos produzidos pelas chuvas e relâmpagos. Porque não era como o som de um motor desenvolvido numa fábrica, que não deixava ninguém dormir até ser desligado. Porque o som da chuva, quanto mais forte, era como uma canção de ninar para humanos; trazia novas forças e possuía uma impressionante habilidade de nos acalmar.

 - Adriano M. Souza -


domingo, 4 de agosto de 2013

Fantasias sobre fatos - Gary - 01

 - Eu acredito em faunos; eles existem! - exclamou Gary a todos os seus colegas da segunda série do ensino médio.
Estavam no meio de uma aula de história e o assunto era sobre povos antigos, onde começaram a questionar o professor sobre as crenças de antigamente. A exclamação de Gary lhe atraiu todos os olhos exceto o da menina que se maquiava num espelho de bolso. Durante quatro segundos o silêncio rompeu a algazarra e isso sim chamou a atenção do professor, pois não era uma tarefa fácil manter alunos daquela idade quietos.

Várias peças foram interpretadas durante o silêncio, e todas tinham como plateia e inspiração Gary. Os garotos do time de futebol o olharam seriamente, sem dizer nada; as meninas das quais ninguém gostava - por supostamente serem inteligentes demais e por não fazer favores à turma - baixaram a cabeça numa expressão de desprezo; dois meninos levaram os dedos indicadores às têmporas e desenharam um círculo no ar, um gesto que dizia "esse aí não bate bem da cabeça". Os demais pareciam não entender o que estava se passando.

O silêncio repentinamente desfez-se numa onda de gargalhadas, palmadas fortes nas carteiras e nos gritos do professor tentando fazer com que o precioso silêncio voltasse. Alguns alunos já gemiam de dor na barriga de tanto rir. As vozes da sala começaram a falar:
 - Ei, acho que ele está passando tempo demais assistindo desenhos. - outras vozes concordaram.
 - Sim, a sala do manicômio devia mudar de canal de vez em quando. - outra onda de risos sobrepôs a antiga.
 - Decerto os pais deles nunca vasculharam o quarto em busca de drogas. - o comentário foi de um patamar mais pesado e poucos riram.
 - Talvez achassem aliens lá dentro também. Talvez puxem os seus pés à noite enquanto pede ajuda a esses faunos. - de novo iniciou-se a onda de risos, porém interrompeu-se ao primeiro vislumbre da face irritada do professor que pusera as duas mãos na cintura.
Gary se encolhera debilmente entre cadeira e carteira e parecia brincar com os dedos de ambas as mãos. O professor, após conter a turma, virou-se para ele. O menino mesmo assim parecia confiante e pouco intimidado, agora.
 - Meu pai tem uma coleção inteira de histórias de fantasia. Ele me ensina tudo. Foi ele que me contou há muitos anos sobre os faunos. - alguns risinhos engasgados se retorceram na garganta de alguns, brevemente.
O professor suspirou, largou o toco do giz na mesa e ajustou o óculos com a ponta do dedo. - Vocês deviam aprender com o seu colega Gary; aprender a ler tanto quanto ele. Na idade de vocês a imaginação é uma agulha bem afiada, mas ela vai-se enferrujando se lhe é dada pouco uso. Fora que, em mais um ano, todos aqui, espero eu, estarão em rumo às mudanças do futuro e de uma carreira profissional. E também .... - um robusto jovem deu de ombros e soltou uma espécie de rosnado - O que foi, Fred? Quer falar alguma coisa? Gostaria que não me interrompesse desse je...
 - Que se dane, professor. Ler? Pra quê? Pra ficar louco igual esse daí e o pai dele? Tô fora. Nos filmes eu não vejo nenhum maluco desses dirigindo um Camaro 0 km. - mais risos abafados e os mesmos olhares de desprezo das meninas inteligentes, que antes tinham direcionado-os a Gary, voltados para Fred.
 - O que disse Fred? Não quero ouvir besteiras na minha aula. - o professor deu um sorriso sem graça - Você vai provar por si mesmo que está muito errado.
 Fred rosnou novamente - Tô nada. - ele disse. Mas se calou. Naquela altura do campeonato já sabia que discussões com o professor só sujariam sua barra.
O professor continuou. - Gostaria que esta gozação não continuasse; e que não ocorresse novamente no ano, ou melhor, na vida de cada um. Oito anos atrás uma menina da oitava série cometera suicídio por causa disso, infelizmente. - Gary levantou a mão e o professor fez um gesto de autorização.
 - Tudo bem professor, eu não me senti ofendido. Acho que - o garoto começou a vislumbrar o nada, e seguiu-o por um instante no olhar, indo e indo até a janela e depois rapidamente para a porta - acho que eles não entenderiam se eu falasse. Se eu conseguisse falar, na verdade. Algumas coisas ultrapassam nossa capacidade de dissertar, e só conseguimos mostrar a nós mesmos.
Esse aí não bate bem da cabeça, a menina que antes se maquiava - e que agora já se mostrava a par da situação - sussurrou alto demais. Os sorrisos agora eram apenas estampados pelas bocas; alguns transformaram-se num olhar de repugnância, porém alguns estalaram pra fora os olhos da curiosidade. O professor cruzou as mãos em frente à barriga e andou vagarosamente em direção a Gary.
 - Olha, Gary, eu conheço seu pai... - os olhos do professor ficaram vagos como se estivesse viajando pelas memórias do passado - ele é um homem responsável. Muito inteligente. Creio que você estará num bom caminho. - sorriu, depois ficou sério. Rapidamente voltou à mesa para apanhar o giz e continuar os tópicos sobre as características culturais de Roma.
                                                                                                                     - Adriano M. Souza -

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Uma dor bate em sua porta - Alfred - 03

Orientais comemoravam o ano novo chinês, imitando dragões e rufando enormes tambores, dentro da cabeça de Alfred.

A noite do primeiro dia de feriado foi de longe a mais cansativa de sua vida. Depois te ter ouvido no noticiário sobre Jorge, nem se lembrou quando desligara a televisão. Caiu no sofá e foi revirando-se, durante as próximas nove horas, como se revira a comida requentada encrustada no fundo da panela. Estava indo consultar o médico em seu carro parcelado em trinta e seis vezes; marcara um exame às 13:30.

 - Começou há três semanas, mais ou menos, doutor. - disse Alfred dentro de uma silenciosa sala branca, sentado numa cadeira acolchoada especialmente para pacientes.
 O doutor lançou-lhe um olhar analítico que indicou experiência, e que provavelmente havia lançado o mesmo olhar milhões de vezes durante a carreira. Aproximou-se de Alfred e examinou sua boca, ouvidos, nariz e os olhos. - Bem, estou vendo que é verdade, seus olhos já falam por você.  Sentiu alguma outra coisa além da dor de cabeça?
 - Não. Só foi isso mesmo. Mas, por favor, deve haver uma solução, um tratamento...está me matando. Matando.
 - Calma, ainda não sabemos a origem da dor. Quando esse é o único sintoma, podemos acabar receitando uma simples Dipirona ou até uma quimioterapia.
 - Está me assustando. - Alfred arregalou os olhos ao ouvir quimioterapia.
 - Apenas comentei. Isso seria um caso entre muitos. Como um ganhador da loteria, só que com a sorte ao avesso.
 - Menos mal, menos mal.
O doutor examinou mais algumas partes de Alfred, preencheu duas folhas de ficha e pediu para que o acompanhasse a uma outra sala onde realizaria um teste de visão, um de audição e uma série de passagens por equipamentos e cadeiras de nomes complicados demais. Por fim, após duas horas e meia de consulta - um recorde para Alfred - retornaram à sala de atendimento e o doutor franziu a testa lendo todas as folhas que acumulara durante o passeio técnico.
 - Bem, falando numa linguagem comum, seus níveis estão razoavelmente normais. Porém vejo que é um sedentário assumido; isso pode ter dado um empurrãozinho à sua suposta enxaqueca.
Alfred virou a cara, sentindo uma inevitável culpa. - É. Não posso negar isso. Mas então, qual o remédio?
 - Calma, as coisas não funcionam bem assim. A maioria dos exames que fizemos há pouco não têm resultado imediato, por isso terá que voltar aqui, vejamos - passou o dedo num caderno rabiscado de nomes - terça?
Alfred sentiu um enorme desânimo acompanhar sua enxaqueca nas nuvens pesadas em seu cérebro. - Ah, pode ser sim. Mas não tem nenhum remédio que digamos, alivie um pouco, até lá?
 - Como eu disse, as coisas não funcionam bem assim. - debruçou-se sobre a mesa e encarou-o - Poderia até lhe indicar um lugar digamos, mais secreto, para que você comprasse algumas coisas sob ordem minha. Mas isso lhe custaria algum dinheiro; e só em casos extremos dou essa mãozinha. Que isso fique entre nós.
 - Claro, c-claro. Pode deixar. Boca fechada.
 - Bem, lhe recomendo que tente relaxar o máximo que puder. Maneirar na alimentação e só; até sair os resultados de seus exames.

Alfred formalmente se despediu do doutor e em pouco tempo já estava no carro, dirigindo, voltando para sua casa alugada. Pensou naqueles médicos desonestos que apareciam nas novelas e nos políticos corruptos que ninguém pegava com a mão na massa. Podia até ter certeza de que políticos, em considerável proporção, eram corruptos, mas médicos ele nunca iria imaginar vestindo o mesmo terno.

Chegou em casa e tentou relaxar, aproveitar um dia de feriado; não conseguiu. A comemoração chinesa ainda rufava os tambores abafados de pano - puf, puf, puf - em sua cabeça. Uma ideia veio à mente num lampejo forte; o deixou sentindo uma palpitação. Já que ia demorar muito tempo até finalmente dormir - e mesmo assim iria ter pesadelos com juízes e todos os tipos de comemorações envolvendo tambores - resolveu vestir roupas adequadas para sair. Na verdade, roupas em tons mais claros, adequadas para uma visita íntima a algum doente. Iria visitar o seu colega Jorge; o semi-morto alérgico a impressoras modernas.

 - Adriano M. Souza -