Páginas

Mostrando postagens com marcador Gary. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gary. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Gary, Augusto e Alfred - Trancafiados

Gary, Augusto e Alfred tomaram vida própria - mesmo sendo um pouco "rastejada" - e permanecerão trancafiados num caderno de 96 folhas do Governo do Estado de Santa Catarina (obrigado pelo caderno), e podem precisar de mais cadernos, pois vêm revelando acontecimentos "volumosos", por assim dizer.

Por este motivo, farei uso desse espaço da maneira da qual propus no OBJETIVO: escrever. Porém não mais sobre esses personagens. Primeiro os deixarei concluir todo o incerto trajeto que precisam. Contudo, não removerei o que fora publicado.





sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Malas prontas para o fim - Augusto - 05

Finalmente o momento tão esperado. Observava pacientemente as últimas filas lotarem, enquanto que as da frente foram as últimas a ser preenchidas por completo. Cerca de mil alunos encontravam-se conversando, brigando, resmungando, curiosos a respeito do homem que sozinho iria encará-los de cima do palco. A hora não demorou a passar, e logo recebeu a ordem para começar com a apresentação. Ligou o microfone previamente testado.
- BOM DIA!
Muitas vozes responderam com certa falta de sincronia. Augusto se apresentou, contando um pouco sobre seus tempos escolares, elogiando alguns professores que assistiam na primeira fila. Havia uma pequena mesa baixa ao seu lado, onde colocara sua mala sofisticada. Ele a abriu, porém ninguém conseguiu ver seu conteúdo enterrado em veludo negro. .

- Muito bem, agora quero fazer uma pergunta. - Sua voz mudou repentinamente para um tom sério, fazendo os murmúrios dos rebeldes das últimas filas cessarem. - Quem quiser responder, suba aqui em cima. Cara juventude, o que é viver?

Um menino de óculos se levantou, porém não se moveu mais.
 - Viver não é apenas existir. Algumas pessoas existem, e é só. Escolher viver é aproveitar tudo que vier. – disse o menino.

Augusto sorriu por um instante. – E se você escolher viver, e de repente sua família morrer, seus planos tomarem outros rumos – inesperados -, o que pensa em fazer?
O menino não tinha resposta para aquilo. Enrubesceu em meio a tantos rostos debochados, outros perplexos.

- Seus professores irão dizer-lhes que a vida será difícil. E então, mesmo com tamanha capacidade formal de ensinar, eles não explicarão o que é tal dificuldade tão inevitável, porque é uma carta diferente para todos nós.

Na primeira fileira, professores olharam-no surpresos, outros pigarreavam e remexiam-se nos assentos. Ele é louco para vir à escola falar tamanha bobagem? Alguns olhos o condenavam por trás de óculos velhos. Augusto continuou:

 - Às vezes nos enganamos com as próprias escolhas, e às vezes elas dão certo. E quando dão certo, às vezes – para não dizer quase sempre – uma eventualidade nada agradável destrói nossa maior trama de um futuro promissor. O que fazer? Parece uma pergunta infinita, com outras infinitas respostas aguardando-a das sombras. – houve uma pausa, na verdade uma maneira de avaliar o quanto seu discurso estava fazendo efeito – Poderia alguém dar-lhes a Resposta das Respostas? Vocês estão em uma escola, se preparando para trabalhar daqui dois anos ou ano que vem. Tá, e daí? O que conseguirão com tudo isso?

Uma figura pôs-se a caminhar debilmente, pálida à luz gritante dos holofotes. Fez o gesto que pedia um momento tímido para responder. O auxiliar de palco entregou o microfone à figura, que segurou-o de forma frágil, quase derrubando-o. Por fim seus lábios abriram-se numa fina fenda de carne pálida, dizendo:
- O homem precisa caminhar. Caminhar sempre em frente. Todas as gerações resistiram assim, caminhando e se questionando, questionando tudo à sua volta, as estrelas, a terra e a água. Estamos aqui, no tempo presente, como a prova real de que todo um caminho fora percorrido. E se o mundo está perdido, e se nada mais fizer sentido, o homem continua caminhando, seja na pior das solidões ou na melhor das alegrias. Nunca devemos nos conformar. Há sempre uma estrada à frente, algo a mais para vislumbrar. – disse o menino que se chamava Gary, Augusto o reconheceu. Segundos depois fora contemplado com suspiros de admiração e surpresa e aplausos.
O garoto devolveu o microfone ao auxiliar de palco, e voltou à sua cadeira em seus passos débeis, arrastados, sem responder ao menos com uma expressão aprovadora. Augusto sorriu, aguardou que o tumulto acabasse sozinho, e falou:


- O jovem foi muito corajoso, admito. Falar sobre questões existências causa irritação em qualquer grupo de qualquer etnia. É como se, no dia-a-dia, para não haver o perigo de alguém perguntar distraidamente para outra pessoa “Olá, porque você veio para cá? Qual seu objetivo? O que lhe movimenta?”, o assunto programado é “Olá, choveu muito ontem, não é mesmo?”. Ninguém parece gostar desse tipo de discussão, e sem dúvida todo mundo antes de dormir pensa a respeito. – houve mais uma pausa. Então Augusto retirou sua mala de cima da mesa, apertou alguns pinos e puxou alguns ganchos de complicado manuseio, e a mala se abriu. Com seu conteúdo ofuscado num forro negro aveludado, a mala ainda ocultava o que havia em seu interior. – Quero fazer uma experiência com todos, mas para isso precisarei de um bom voluntário que suba aqui em cima para me ajudar.


                                                                                           - Adriano M. Souza -


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Fantasias sobre fatos - Gary - 03


Conhecera um homem no início da manhã. Augusto era o nome dele; parecia um inspetor do futuro que viera averiguar os acontecimentos do passado, com suas roupas sofisticadas e sua mala prateada, que poderia a qualquer momento se abrir e revelar qualquer mecanismo enorme. Mas não. Era um homem normal, do presente. Normal na verdade não, pois fazia-o lembrar do pai. Além de tudo, o homem conhecia fantasia, e gostava dela. Gary por anos sustentou o pensamento de que todos os adultos um dia mergulharam em mundos de realidades alternativas, com seres curiosos e poderosos que poderiam nos dar uma lição para a vida durante o relato de jornadas inesquecíveis. Também, anexado a este pensamento, imaginava que todos os adultos tornaram-se maduros e por fim acharam aqueles mundos estúpidos e infantis. Claro que Tiago, seu pai, tratava-se de uma cláusula especial. Mas agora havia outro, havia Augusto. Poderia encontrá-lo novamente? Achava que não, porém queria.
A voz do professor de história se tornava cada vez mais alta – uma tentativa de chamar a atenção da turma que queria falar e ouvir de tudo e de todos, menos de suas palavras lapidadas sobre os povos ancestrais americanos. Gary, o único interessado no assunto, distraíra-se pensando no homem da maleta metálica. A voz do professor agora chegava aos seus ouvidos lentamente, como um objetivo arremessado embaixo d’água. Não demorou muito até acontecer a mesma coisa com sua visão. E num súbito devaneio, estava em outro lugar que talvez nem existisse.
Era um total negrume, que iluminou-se aos poucos como um cidade que se recupera de uma queda de energia. As luzes brancas originavam-se de pontos, sendo cada qual separado por dois metros de escuridão. Duas linhas dessas luzes vinham do mesmo lugar em sua direção, lembrando uma passarela de um desfile de moda. Nada mais se podia ver.

Pac... Plac... Plac... – o som de líquido fazia ao pingar em algum lugar.
Gary só via a passarela iluminada, porém bem sabia que havia algo sobre ela; e podia vê-lo. Na verdade, havia o chamado.

- Você gosta da água, Gary? Do som dos pingos de chuva caindo? – uma voz perguntou; uma voz que não definia feminilidade ou masculinidade. Uma voz vagarosa que parecia nunca chegar, nunca terminar sua sentença. De algum modo soube quando era o momento de responder.

- Sim.

- De onde vem a água, Gary?

- Da Terra. Da natureza.

- E de onde veio a Terra, com sua natureza? – a voz ganhou um tom subido de arrogância.

- Não sei.

Ouviu uma respiração profunda, doentia.
- Quem é sua mãe, Gary?

- Não sei.

- Você sabe quem é o seu pai?

- Eu sei.

- Sabe a importância dele?

- Apenas sei que é importante.

- Tiago cuidou bem de você; lhe ensinou bem.

- Obrigado.

- Deve contar o que sabe a todos, Gary.

- Eu devo?

- Sim. É necessário contar a todos.

- Sim. É.

- Hoje, Gary. Daqui a algumas horas. Saberá quando sua oportunidade chegar. Se estiver realmente pronto para isso – a voz saíra da arrogância e fora para a seriedade – saberá quando interrompê-lo e começar a falar.
- Interromper quem?

- Espero que você saiba. Precisa contar a todos antes que o segredo acabe em você. É 
necessário. Quando – e se – você começar a contar, os sentimentos de quem lhe ouve serão restabelecidos; não sobrará dúvidas nos olhos de ninguém quando você terminar. Dentro de poucos dias todos saberão a verdade.

- E o meu pai?

- Ele o criou para isso. Não cabe a ele. Talvez nunca mais se encontrem.

- Tudo bem. - Gary já não conseguia dar respostas mais complexas, fora tomado por um súbito desejo de obediência. As palavras pareciam sair da sua boca como se fossem de outra pessoa.

- Contamos com você. Há milhões de anos tentamos isso.

A voz parou de falar. As luzes gradualmente se apagaram. O negrume se extinguiu e Gary voltou à realidade, como quando olhamos um vidro fumê à distância e, ao se aproximar, conseguimos ver o que se oculta por trás dele.

- ...rrompermos a aula dessa maneira, gente, mas o professor já estava sabendo. Podem guardar o material e se dirigirem ao palco principal. O conhecimento vos espera. – estava dizendo Kelly, a moça da secretaria. Gary a conhecia apenas de vista.

- Isso aê! Vamos assistir a um filme? – alguém perguntou.

- Não. Claro que não. Teremos uma palestra.

E a turma caiu em desespero. As palestras: para eles falatórios que jamais pareciam ter fim, sobre um assunto que não dizia respeito a ninguém.

- Eu prefiro um show de rock – gritou o robusto Fred.

- Cale a boca Fred. A palestra é sobre o quê? – uma das meninas inteligentes perguntou.

- Prefiro não dizer; é surpresa. Um antigo aluno da escola fez questão de vir ter uma palavra com todo o ensino médio. O nome dele é Augusto e promete que esse dia mudará a vida de todos vocês.

Gary, menino sempre quieto e disciplinado, ficou boquiaberto e com os olhos esbugalhados. O professor notou sua expressão e fez uma cara de “não foi uma boa hora de olhar pra esse lado”.
Todos tentaram sair ao mesmo tempo. Gary imaginou um confronto épico entre a diretora e a manada de búfalos que avançava aos empurrões. Sua tensão chegava a ser visível; um balde transbordando medo e aflição havia sido jogado em sua cabeça.

 As turmas pouco a pouco recheavam o palco principal. Augusto estava lá, em pé, com todo o equipamento multimídia disponível e sua estranha maleta fechada em cima de uma mesa. Gary se sentou em uma das primeiras fileiras. A voz falara que ele saberia o momento certo, e agora estava ciente disso.

- Adriano M. Souza -

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Fantasias sobre fatos - Gary - 02

Uma calma noite se desvencilhava sob a paisagem de finas nuvens cinzentas que cortavam a lua crescente, fazendo-a se parecer com um sorriso banguela. A ideia de população civilizada no meio e dentro das torres de cimento na cidade de Lordevile era completamente ignorada na vastidão dos campos verdes onde Gary morava com seu pai.

Depois do jantar (que aliás era um dos momentos mais deliciosos para Gary, porque sempre que chegava da aula às sextas-feiras uma mesa, que parecia ter saído de uma máquina do tempo que regressara da era medieval, o aguardava majestosamente no salão de jantar) pai e filho subiam à plataforma circular - toda trabalhada em madeira - que projetava-se da casa e se apoiava em dois carvalhos que ainda cresciam juvenis e fortes. Lá de cima sempre vislumbravam as noites mais belas, mesmo que fosse um temporal, pois Tiago dizia a Gary que a natureza era bela até em suas fartas chuvas e relâmpagos.
Porém, hoje, estavam conversando sobre o que Gary contara que havia acontecido na sala de aula.
 - Filho, você pode seguramente abrir um debate sobre mitologia, porém não pode afirmar com veemência que acredita em seres fantásticos. - Tiago era um sujeito alto e de bom físico, quase escultural. Usava pequenos óculos retangulares que amenizavam os efeitos da deficiência da visão de seus olhos castanho-amarelados.
 - Lamento por isso, pai. Sabe, eles me olharam como se eu fosse louco. E o professor estava agindo de modo evasivo. Eles não compreendem... - Gary fazia sua brincadeira com os dedos novamente, enquanto olhava as nuvens afastarem-se do sorriso da lua devolvendo-lhe os dentes faltantes.
Tiago andou em direção à borda da plataforma entre os troncos de ambos os carvalhos, que ainda iam em direção ao céu por cerca de quatro metros até, por fim, terminarem em galhos pontilhados de folhas verdes. Ele estendeu as mãos para cima e - talvez por acaso - um vento soprou forte. A enorme de dupla de árvores, pilares-vivos da plataforma, balançaram lentamente se curvando para dentro, quase fechando um arco sobre o homem. O movimento reverso foi naturalmente mais rápido, lembrando duas catapultas montadas em direções opostas. O vento amainou e dois relâmpagos profetizaram a chuva no horizonte, a muitos quilômetros dali. Tiago virou-se, com os cabelos pretos sobre a face de uma cor dourada fantasiosa, e falou a Gary:
 - As pessoas seguem o seu caminho. Todos possuem os códigos secretos que reproduzem nossas raras formas de vida, mas poucos se importam com isso, sequer pensam sobre isso.
Continuou após uma longa pausa:
 - Filho, você poderia ter a idade de corpo e mente paralelas, mas eu acharia isso lamentável. Terrivelmente tal fato é muito comum por entre as torres de concreto como aquela - apontou para Lordevile - e você sabe disso.
- Sei sim, pai.
Tiago detectou verdade no filho e sorriu numa formidável paz interior. De repente pareceu preocupado e estreitou o olhar, perguntando:
- Mas ninguém percebeu o que você estava vendo? O que escapou de suas vistas pela porta?
- O quê, pai? Ah..não, acho que ninguém viu.
- É um bem maior que fazemos a eles. Não têm a preparação para ver o restante. Aliás, nem você tem, filho - e sorriu como se tivesse contado uma piada -, embora possa ver mais do que eles; o que é um prodígio.

Então a noite acabou para Gary quando a tempestade chegou à casa e seu pai pediu para que descesse para ir dormir. Tiago continuou lá em cima abaixo d'água e Gary não percebeu quando - e se - o pai descera.

No pequeno, mas confortável, quarto de Gary, o tamborilar da chuva era abafado pela espessa madeira que formava as quatro paredes do cômodo. Olhando pela janela, confirmava mentalmente a verdade que o seu pai dissera. Que a natureza era bela até em seus estrondosos barulhos produzidos pelas chuvas e relâmpagos. Porque não era como o som de um motor desenvolvido numa fábrica, que não deixava ninguém dormir até ser desligado. Porque o som da chuva, quanto mais forte, era como uma canção de ninar para humanos; trazia novas forças e possuía uma impressionante habilidade de nos acalmar.

 - Adriano M. Souza -


domingo, 4 de agosto de 2013

Fantasias sobre fatos - Gary - 01

 - Eu acredito em faunos; eles existem! - exclamou Gary a todos os seus colegas da segunda série do ensino médio.
Estavam no meio de uma aula de história e o assunto era sobre povos antigos, onde começaram a questionar o professor sobre as crenças de antigamente. A exclamação de Gary lhe atraiu todos os olhos exceto o da menina que se maquiava num espelho de bolso. Durante quatro segundos o silêncio rompeu a algazarra e isso sim chamou a atenção do professor, pois não era uma tarefa fácil manter alunos daquela idade quietos.

Várias peças foram interpretadas durante o silêncio, e todas tinham como plateia e inspiração Gary. Os garotos do time de futebol o olharam seriamente, sem dizer nada; as meninas das quais ninguém gostava - por supostamente serem inteligentes demais e por não fazer favores à turma - baixaram a cabeça numa expressão de desprezo; dois meninos levaram os dedos indicadores às têmporas e desenharam um círculo no ar, um gesto que dizia "esse aí não bate bem da cabeça". Os demais pareciam não entender o que estava se passando.

O silêncio repentinamente desfez-se numa onda de gargalhadas, palmadas fortes nas carteiras e nos gritos do professor tentando fazer com que o precioso silêncio voltasse. Alguns alunos já gemiam de dor na barriga de tanto rir. As vozes da sala começaram a falar:
 - Ei, acho que ele está passando tempo demais assistindo desenhos. - outras vozes concordaram.
 - Sim, a sala do manicômio devia mudar de canal de vez em quando. - outra onda de risos sobrepôs a antiga.
 - Decerto os pais deles nunca vasculharam o quarto em busca de drogas. - o comentário foi de um patamar mais pesado e poucos riram.
 - Talvez achassem aliens lá dentro também. Talvez puxem os seus pés à noite enquanto pede ajuda a esses faunos. - de novo iniciou-se a onda de risos, porém interrompeu-se ao primeiro vislumbre da face irritada do professor que pusera as duas mãos na cintura.
Gary se encolhera debilmente entre cadeira e carteira e parecia brincar com os dedos de ambas as mãos. O professor, após conter a turma, virou-se para ele. O menino mesmo assim parecia confiante e pouco intimidado, agora.
 - Meu pai tem uma coleção inteira de histórias de fantasia. Ele me ensina tudo. Foi ele que me contou há muitos anos sobre os faunos. - alguns risinhos engasgados se retorceram na garganta de alguns, brevemente.
O professor suspirou, largou o toco do giz na mesa e ajustou o óculos com a ponta do dedo. - Vocês deviam aprender com o seu colega Gary; aprender a ler tanto quanto ele. Na idade de vocês a imaginação é uma agulha bem afiada, mas ela vai-se enferrujando se lhe é dada pouco uso. Fora que, em mais um ano, todos aqui, espero eu, estarão em rumo às mudanças do futuro e de uma carreira profissional. E também .... - um robusto jovem deu de ombros e soltou uma espécie de rosnado - O que foi, Fred? Quer falar alguma coisa? Gostaria que não me interrompesse desse je...
 - Que se dane, professor. Ler? Pra quê? Pra ficar louco igual esse daí e o pai dele? Tô fora. Nos filmes eu não vejo nenhum maluco desses dirigindo um Camaro 0 km. - mais risos abafados e os mesmos olhares de desprezo das meninas inteligentes, que antes tinham direcionado-os a Gary, voltados para Fred.
 - O que disse Fred? Não quero ouvir besteiras na minha aula. - o professor deu um sorriso sem graça - Você vai provar por si mesmo que está muito errado.
 Fred rosnou novamente - Tô nada. - ele disse. Mas se calou. Naquela altura do campeonato já sabia que discussões com o professor só sujariam sua barra.
O professor continuou. - Gostaria que esta gozação não continuasse; e que não ocorresse novamente no ano, ou melhor, na vida de cada um. Oito anos atrás uma menina da oitava série cometera suicídio por causa disso, infelizmente. - Gary levantou a mão e o professor fez um gesto de autorização.
 - Tudo bem professor, eu não me senti ofendido. Acho que - o garoto começou a vislumbrar o nada, e seguiu-o por um instante no olhar, indo e indo até a janela e depois rapidamente para a porta - acho que eles não entenderiam se eu falasse. Se eu conseguisse falar, na verdade. Algumas coisas ultrapassam nossa capacidade de dissertar, e só conseguimos mostrar a nós mesmos.
Esse aí não bate bem da cabeça, a menina que antes se maquiava - e que agora já se mostrava a par da situação - sussurrou alto demais. Os sorrisos agora eram apenas estampados pelas bocas; alguns transformaram-se num olhar de repugnância, porém alguns estalaram pra fora os olhos da curiosidade. O professor cruzou as mãos em frente à barriga e andou vagarosamente em direção a Gary.
 - Olha, Gary, eu conheço seu pai... - os olhos do professor ficaram vagos como se estivesse viajando pelas memórias do passado - ele é um homem responsável. Muito inteligente. Creio que você estará num bom caminho. - sorriu, depois ficou sério. Rapidamente voltou à mesa para apanhar o giz e continuar os tópicos sobre as características culturais de Roma.
                                                                                                                     - Adriano M. Souza -